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Por que o tempo parece passar mais rápido à medida que envelhecemos?

Por que o tempo parece passar mais rápido à medida que envelhecemos? . Resposta: devido a uma coisa chamada atitude analítica. . Quando eu era criança adorava brincadeiras ao ar livre, principalmente nadar. Nossas idas à praia eram sempre precedidas pelo momento de passar filtro solar, obrigatório antes de todas as atividades ao ar livre. Espalhar o filtro solar sobre todo o corpo era rápido, o problema é que para poder ir brincar sob o sol eu precisava esperar os famigerados trinta minutos, recomendação expressa no verso da embalagem. Esse intervalo simplesmente parecia uma eternidade. Os trinta minutos da infância, esperando que o filtro solar fizesse efeito, eram infinitos. . Trinta minutos hoje em dia, por outro lado, derretem num num piscar de olhos. . Por que? . Um dos motivos é a expectativa. O momento da espera era marcado pela cruel, mas entusiasmada, expectativa em relação ao mundo diante de mim, o mundo e todas as possibilidades de diversão que ele me oferecia, mas que eu não estava vivendo, ainda, porque eu não podia, ainda, ir para debaixo do sol. Durante todo aquele momento a criança só tem um objetivo: vencer os trinta minutos e ir para o sol. A expectativa "alonga" a duração do tempo vivido. Outro motivo é o fato de que quando criança nós não compreendemos exatamente o sentido do filtro solar, quer dizer, o filtro solar poderia parecer só mais uma coisa chata que os adultos nos obrigam a fazer e cuja razão de ser não compreendemos verdadeiramente. A perplexidade também "alonga" a duração do tempo vivido. Esses dois motivos são importantes, mas não são os mais determinantes. Porque durante a vida adulta, mesmo nas situações que envolvem expectativa e perplexidade – por exemplo, quando estamos na fila do caixa, esperando para sermos atendidos, e por algum motivo a fila pára da andar – ainda assim a “duração subjetiva” da espera nem de longe se assemelha àquela que vivenciávamos na infância. O principal motivo pelo qual o tempo realmente parece passar mais rápido à medida que envelhecemos, o mais determinante de todos, é o fato de que quando crianças nós não adotamos, em relação à realidade, a chamada atitude analítica. . Mas o que é a atitude analítica? É a atitude mental que nós adotamos quando raciocinamos, quando nos ocupamos mentalmente de algum objeto (alguma questão, algum assunto ou alguma situação), decompondo-no em partes e olhando as partes separadamente; questionando-as, julgando-as. À primeira vista essa descrição parece nos remeter a raciocínios sofisticados e muito intelectuais, como cálculos, por exemplo, o que de fato é o caso; mas na realidade não é só na lida com questões intelectuais que nós agimos de maneira analítica. Agimos de maneira analítica quando a nossa presença numa determinada situação é mediada por pensamentos sobre, por exemplo, coisas que aconteceram no mesmo dia mais cedo, ou no dia anterior; pensamentos sobre coisas que precisamos fazer em seguida ou mais tarde naquele dia, ou no outro dia. Agimos de maneira analítica quando nos fazemos perguntas, ainda que de maneira implícita, como “onde foi que deixei minhas chaves?”, ou “por que tal coisa não está funcionando?” e quando pensamos em respostas a essas perguntas. Agimos de maneira analítica quando julgamos, atribuindo qualidades ou defeitos às coisas. Agimos de maneira analítica quando temos pensamentos que começam com “e se...” ou “será que...”. . Com efeito, grande parte do êxito na vida adulta depende da adoção de atitudes analíticas, porque ser capaz de se colocar de um ponto de vista analítico (se colocar a uma certa distância de uma coisa e considerá-la) é parte do que é viver uma vida adulta, responsável e produtiva. Porém, quando essa forma de posicionamento se dissemina por todas as situações que vivemos e passa a permear toda a nossa lida com o mundo, de modo que não conseguimos sair dela, nem momentaneamente, aí perdemos parte da concretude da situação. A atitude analítica instaura uma espécie de auto-hipnose; ela cria um objeto mental (abstrato) que nos “distrai”, de certa maneira; que nos afasta da situação (tomamos uma espécie de distância em relação à situação, para poder analisá-la); e isso faz com que o tempo concreto, objetivo, não seja subjetivamente vivenciado de maneira total. Perdemos a situação. Nós não mais percorremos cada “pedacinho” da situação, mas pegamos atalhos; nós não mais sorvemos cada um de seus instantes, mas experimentamo-nos, antes, como evanescentes. E quanto mais velhos ficamos, maior o nosso repertório de insumos para a atitude analítica; maior a nossa bagagem de coisas para pensar, e mais consolidado é nosso o hábito de fazê-lo. . A meditação é, em larga medida, um esforço na contra-mão da atitude analítica, ou seja, é uma atividade mental contrária à auto-hipnose. A meditação consiste de contemplar (objetos ou a ausência deles) no aqui e no agora sem questionar, sem julgar sem analisar e sem desviar a atenção para outra coisa; e isso traz como efeito uma vivência mais plena e mais total da situação concreta. O tempo vivido “rende” mais. Por isso a oitava e última parte de uma prática de SwáSthya Yoga, samyáma, é o treinamento para meditação. Com ele pretendemos aprender a suspender a atitude analítica por determinação da nossa vontade e recuperar a atitude natural, a imersão na situação concreta.

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© 2020 por Kyoshin. Artes geradas com Canva Pro.